Nem sempre gritar é o problema

Nem todo o som é descontrolo.
Há uma diferença entre levantar a voz, gritar e berrar, e às vezes, sim, é preciso levantar a voz.

Há quem diga que pais conscientes nunca gritam.


Que falam sempre com calma, num tom neutro, como se estivessem permanentemente a narrar um documentário da BBC.

Mas na vida real… há manhãs de escola, jantares atrasados, birras estratégicas e brinquedos espalhados que parecem multiplicar-se por clonagem.


E nesse mundo real, a voz sobe.
E sabes que mais? 
Não é o fim do mundo.

Levantar a voz não é o mesmo que perder o controlo.

Às vezes é só o som de um adulto a tentar ser ouvido.

Há uma diferença clara e importante, entre levantar a voz, gritar e berrar.

Levantar a voz é dar firmeza ao limite.

É quando já disseste três vezes e precisas que aquela mensagem chegue.
É energia, não raiva.
É o teu corpo a dizer: “Eu estou aqui e isto é sério.”

Gritar é quando o tom vem do cansaço, da exaustão.
Quando o corpo já não tem regulação suficiente para filtrar a intensidade.
É humano, mas desgasta.

Berrar é quando a raiva tomou conta, quando deixamos de comunicar para tentar controlar.
E é aí que todos perdem, nós e os filhos.
Educar não é uma missão pelo silêncio absoluto.
É um exercício de consciência, perceber de onde vem a nossa reação e o que ela realmente transmite.

Não é sobre nunca levantar a voz, é sobre saber porquê, e quando.

Lembro-me de um dia em que pedi, com toda a calma possível:
“Arrumem os sapatos, por favor.”
Três vezes.
Nada.
A quarta veio mais alta.
E foi a única que resultou.

Levantei a voz, sim.
Mas não berrei.